Contudo, Eu, com toda a certeza, te salvarei naquele Dia, assegura o SENHOR, e não serás entregue nas mãos dos homens a quem temes. Pois, em verdade, te resgatarei, e não morrerás ao fio da espada, mas terás a tua vida como despojo, porquanto depositaste a tua confiança na minha pessoa!” Palavra de Yahweh.
(Jeremias 39:17 e 18)
O problema central da ausência de piedade e compaixão diante da dor alheia não reside, necessariamente, na maldade pura, mas na incapacidade recorrente de autoanálise. Não uma autoanálise indulgente, moldada por conveniências morais, ideológicas ou sociais, mas aquela que desmonta o próprio indivíduo. O que se observa, no entanto, é o contrário: sujeitos que operam sob uma régua seletiva, exibindo virtudes calculadas enquanto ocultam interesses mesquinhos, sustentando a ilusão de superioridade em relação ao “resto da sociedade”.
Se essa autoanálise fosse acessível, simples ou natural, não haveria especialistas imersos nas mesmas contradições que estudam. Psicólogos não carregariam suas próprias neuroses; o ser humano não precisaria performar humanidade — apenas seria.
Nesse cenário, a distinção entre “bons” e “maus” torna-se menos sólida do que se supõe. Ambos estão submetidos às mesmas contingências: acordam, alimentam-se, trabalham, relacionam-se, sofrem, celebram e, inevitavelmente, julgam. Riem, ironizam, choram, desprezam e, muitas vezes, encontram prazer ou indiferença no infortúnio alheio. A diferença, se existe, não está no rótulo, mas na coerência interna — rara — entre o que se é e o que se pratica.
A ideia de uma moral absoluta, portanto, esbarra na própria natureza humana: competitiva, adaptativa e, acima de tudo, limitada. Somos animais racionais, não entidades transcendentes. Não possuímos domínio sobre as forças que nos cercam, tampouco operamos acima delas. Não somos sobrenaturais.
E, ainda assim, algo insiste.
Não como imposição externa, nem como voz audível, mas como medida silenciosa que atravessa o indivíduo mesmo quando ele tenta ignorá-la. Uma referência que não depende de consenso, de cultura ou de conveniência — e que, paradoxalmente, se revela justamente na incapacidade humana de alcançá-la plenamente.
É nesse ponto que o dilema se transforma: não mais “por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?”, mas “de onde vem essa noção de ‘bom’ que nos permite julgar o que acontece?”.
A resposta fácil recorre à construção social, ao acaso, à evolução. Mas nenhuma dessas explicações resolve por completo o incômodo de existir uma régua que o próprio ser humano não consegue cumprir, mas insiste em reconhecer.
Essa régua não se localiza. Não se mede. Não se negocia.
Ela se manifesta.
Não no extraordinário, mas no cotidiano: na consciência que acusa, no desconforto diante da injustiça, na recusa íntima de aceitar o mal como normal — mesmo quando se pratica o contrário.
Nesse sentido, a realidade não é apenas material. Ela é também atravessada por uma dimensão que não se deixa capturar, mas que sustenta o próprio conceito de verdade, justiça e retidão.
Não se trata de provar, mas de perceber: aquilo que o homem chama de moral, justiça ou verdade não nasce dele — apenas o alcança.
E talvez seja exatamente por isso que falhamos tanto.
Não por ausência de regra, mas por incapacidade de corresponder a algo que nos excede.
Se há presença, ela não se impõe como evidência incontestável, mas como fundamento constante. Não ocupa um lugar, pois não está contida no espaço. Não se limita ao tempo, pois não depende dele para existir.
Está em tudo — não como objeto, mas como sentido.
E é nesse silêncio, mais do que em qualquer afirmação explícita, que muitos reconhecem aquilo que chamam de Deus.
