"E não somente isto, mas também nos
gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual agora alcançamos a
reconciliação. ROMANOS 5.11"
Madeline, apenas cinco anos, subia
no colo de seu pai
— Você já terminou de comer? —
Pergunta ele.
Ela sorri e bate com a mãozinha na
barriga.
— Não cabe mais nada.
— Você comeu a torta da sua avó?
— Um pedaço inteirinho!
Joe olhou para a sua mãe, que estava
do outro lado da mesa: — Parece que você conseguiu alimentar todos nós. Não
pense que conseguiremos fazer outra coisa esta noite além de ir para a cama.
Madeline colocou suas mãozinhas em
cada lado de seu grande rosto.
— Ah, papai, é noite de Natal. Você
disse que poderíamos dançar.
Joe fingiu um lapso de memória. — Eu
disse? Não me lembro de ter dito qualquer coisa sobre dançar.
Vovó sorriu, balançou a cabeça e
começou a limpar a mesa.
— Mas, papai — contestou Madeline —
sempre dançamos na noite de Natal. Só nos dois, lembra?
Então ele deu um grande sorriso que
mexeu até seu grande bigode.
— É claro que me lembro, como
poderia esquecer?
Assim ele colocou-se de pé, tomou-a
pela mão e, por um momento, só um momento, sua esposa estava viva novamente, e
os dois entravam em seu refúgio para passar a noite de Natal como tantas
outras, dançando noite adentro.
Eles teriam dançado pelo resto de
suas vidas; então aconteceu a gravidez inesperada e as complicações. Madeline
sobreviveu. Mas sua mãe não. E Joe, o açougueiro de Minessota, foi obrigado a
criar sua Madeline sozinho. —
Vamos, papai — ela balançava a mão
de seu pai. — Vamos dançar antes que as pessoas comecem a chegar. Ela estava
certa. Logo a campainha soaria, os parentes ocupariam os espaços livres e a
noite estaria terminada.
Mas, por agora, havia somente Papai
e Madeline.
* * *
O amor de um pai por seu filho
possui uma força poderosa. Observe um casal com seu filho recém-nascido. O bebê
nada pode oferecer a seus pais. Absolutamente nada. Dinheiro, habilidade,
palavra de sabedoria. Se ele tivesse bolsos, estariam vazios. Ver um bebê
deitado em um berço é o mesmo que observar uma total impotência. E se não
houvesse amor?
Quaisquer que sejam as necessidades,
mamãe e papai suprirão. Apenas olhe para o rosto do bebê enquanto ela o
amamenta. Olhe para os olhos do pai enquanto ele acomoda a criança em seus
braços. E tente falar mal do pequeno bebê. Se for ousado o suficiente,
encontrará uma poderosa força, pois o amor de um pai ou mãe é extraordinário.
Jesus perguntou certa vez, se nós,
pecadores, temos tanto amor, quanto mais Deus, o Pai celestial e sem pecado,
nos ama? Mas, o que acontece quando o amor não é correspondido? O que acontece
ao coração do pai quando seu amor não é correspondido?
A rebeldia chegou ao mundo de Joe de
forma bizarra. Quando chegou à idade permitida para dirigir, Madeline pensou
ser adulta suficiente para dirigir também sua vida. E esta vida não incluía a
de seu pai.
"Eu deveria ter percebido
antes", diria Joe mais tarde. Ele não soube o que fazer. Ele não soube
como lidar com o piercing no nariz e as camisetas apertadas. Não compreendia as
noitadas e as notas baixas. E acima de tudo, ele não sabia quando falar e
quando se calar.
Ela, por sua vez, já tinha tudo
planejado. Sabia quando falar com seu pai — nunca. Quando ficar calada —
sempre. No entanto, este comportamento era totalmente diferente com o rapaz
desengonçado e tatuado da rua de baixo, e Joe sabia disso. De jeito nenhum ele
iria permitir que sua filha passasse a noite de Natal com aquele sujeito.
— Você vai ficar conosco esta noite,
mocinha. Vamos jantar na casa da sua avó e comer a torta dela. Vamos ficar em
família na noite de Natal.
Embora sentados à mesma mesa, eles
pareciam estar em lados opostos da cidade. Madeline brincava com a comida sem
dizer uma palavra sequer. Vovó tentava conversar com Joe, mas ele não estava
com vontade de falar. Parte dele estava furiosa; outra parte de coração
partido, e o resto dele teria dado tudo para saber como falar com a garotinha
que costumava sentar em seu colo.
Logo chegaram os parentes, trazendo
consigo um bom final para aquele silêncio horrível. À medida que o aposento se
enchia de pessoas e barulho, Joe ficava de um lado, e Madeline carrancuda,
sentada do outro lado.
— Coloque uma música, Joe — lembrou
um de seus irmãos. E assim ele fez. Pensando que ela se sentiria honrada, ele
foi ao encontro de sua filha:
— Você dançaria com seu papai esta
noite?
Da forma como ela se zangou e virou,
qualquer um pensaria que ele a havia insultado.
Em frente de todos os familiares,
ela abriu a porta da casa e saiu a pé. Deixando seu pai sozinho.
Muito solitário.
* * *
De acordo com a Bíblia, temos feito
o mesmo. Temos rejeitado o amor de nosso Pai: "cada um se desviava pelo
seu caminho" (Is 53.6).
Paulo piora ainda um pouco nossa
rebelião. Temos feito mais do que nos desviar, diz ele; temos nos voltado
contra. "Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos
ímpios" (Rm 5.6).
Ele fala ainda mais rudemente no
versículo 10: "Porque, se nós, sendo inimigos". Duras palavras, não
acha? Um inimigo é um adversário. Aquele que ofende, não por ignorância, mas
intencionalmente. Isto nos descreve? Alguma vez já nos voltamos contra nosso
Pai?
Você alguma vez...
...fez alguma coisa, sabendo que
Deus não queria que você fizesse?
...feriu um de seus filhos ou parte
da criação?
...apoiou ou aplaudiu o trabalho de
seu adversário, o diabo?
...deu às costas ao nosso Pai
celestial em público?
Em caso afirmativo, não fez você
então o papel de inimigo?
Então como Deus reage quando nos
tornamos seus inimigos?
Madeline voltou naquela noite, mas
não por muito tempo. Joe nunca a culpou por ter saído. Além do mais, como ela
se sentia sendo a filha de um açougueiro? Em seus últimos dias juntos, ele
tentou com todas as suas forças. Fez seu jantar favorito — ela não quis comer.
Convidou-a para ir ao cinema — ela permaneceu em seu quarto. Comprou-lhe um
vestido novo — ela nem mesmo agradeceu. Então, naquela manhã de primavera, ele
saiu cedo para trabalhar, afim de poder estar de volta antes que ela chegasse
da escola.
Este foi o dia em que ela não mais
voltou para casa.
Uma amiga disse ter visto Madeline e
seu namorado na estação de ônibus. As autoridades confirmaram a compra de uma
passagem para Chicago, de onde ninguém mais a encontrou.
* * *
A estrada mais notória do mundo é a
Via Dolorosa, "o Caminho do Sofrimento." De acordo com a tradição,
esta foi a rota que Jesus fez do tribunal de Pilatos até o Calvário. O caminho
é marcado por paradas usadas pelos cristãos para seus devocionais. Uma parada
marca a passagem do veredicto de Pilatos. Outra, o momento em que Simão
carregou a cruz. Duas paradas marcam o tropeço de Jesus, outra as palavras de
Cristo. No total, existem quatorze paradas, cada uma lembrando os fatos da
jornada final de Jesus.
Seria esta rota precisa?
Provavelmente não. Quando Jerusalém foi destruída no ano 70 d.C. e novamente em
135 d.C., as ruas da cidade foram destruídas. Como resultado, ninguém conhece
exatamente o caminho feito por Cristo naquela sexta-feira.
Mas nós sabemos exatamente onde
iniciou este caminho.
Ele começou não no tribunal de
Pilatos, mas nos átrios dos céus. O Pai começou a sua jornada quando deixou sua
casa à nossa procura. Armado com nada mais do que a paixão de ganhar nosso
coração, Ele veio à busca. Seu desejo era singular — trazer seus filhos para
casa. A Bíblia tem uma palavra para esta questão: reconciliação.
"Deus estava em Cristo
reconciliando consigo o mundo" (2 Co 5.19). A palavra grega para
reconciliar significa "retribuir algo de maneira diferente." A
reconciliação inverte a rebelião, reacende a fria paixão.
A reconciliação toca os ombros do
inconstante e o faz retomar a casa.
O caminho da cruz nos ensina
exatamente quão distante o Senhor caminha para nos buscar.
* * *
O garoto desajeitado e tatuado tinha
um primo. Ele trabalhava no turno da noite em uma loja de conveniência no sul
de Houston. Por alguns trocados por mês, ele permitia que os fugitivos ficassem
em seu apartamento durante a noite, mas eram obrigados a sair durante o dia.
O que era ótimo para eles, pois
tinham grandes planos. Ele seria mecânico, e Madeline só sabia que poderia
conseguir um emprego em uma loja de departamentos. É claro que ele nada sabia
sobre carros, e ela menos ainda sobre arrumar emprego — mas não é assim que uma
pessoa pensa quando está intoxicada pela liberdade.
Após algumas semanas, o primo mudou
de ideia. E, no dia em que anunciou sua decisão, o namorado anunciou a dele.
Madeline encontrou-se enfrentando a noite sem lugar para dormir ou mão para
segurar.
Esta foi a primeira de muitas
noites.
Uma mulher no parque contou-lhe
sobre um abrigo para mendigos próximo à ponte. Por alguns trocados ela
conseguiria um prato de sopa e uma cama. Alguns trocados era tudo o que ela
tinha. Ela usou sua mochila como travesseiro e a jaqueta como cobertor. Havia
tanta arruaça que era impossível dormir naquele lugar. Madeline virou seu rosto
para a parede e, pela primeira vez em vários dias, lembrou-se do rosto de seu
pai ao dar-lhe um beijo de boa noite. Mas, quando seus olhos começaram a ficar
marejados, ela recusou-se a chorar, empurrando as lembranças para o fundo de
seu ser e determinando-se a não mais pensar em sua casa.
Ela tinha ido muito longe para
voltar.
Na manhã seguinte a garota da cama
ao lado mostrou-lhe a mão cheia de gorjetas que recebera por dançar em cima das
mesas.
— Esta foi a última noite que dormi
aqui — disse ela. — Agora posso morar em outro lugar. Eles me disseram que
estão procurando outra moça. Você deveria vir — ela procurou em sua bolsa e
tirou uma caixa de fósforos. — Este é o endereço.
O estômago de Madeline embrulhou só
de pensar. Tudo o que ela fez foi murmurar:
— Vou pensar no assunto.
Ela passou o resto da semana nas
ruas à procura de trabalho. Ao final da semana, quando chegou o momento de
pagar sua conta no abrigo, ela colocou a mão em seu bolso e tirou a caixa de
fósforos. Era tudo o que lhe sobrara.
— Não vou ficar esta noite. — disse
ela ao sair pela porta.
A fome tem seus caminhos para
amenizar as convicções.
* * *
Orgulho e vergonha. Você nunca diria
que são irmãos. Eles parecem ser tão diferentes. O orgulho empinou seu peito. A
vergonha pesa em sua cabeça. O orgulho ostenta. A vergonha esconde. O orgulho
busca o reconhecimento. A vergonha busca ser evitada.
Mas não se engane, as emoções
possuem a mesma parentela. E as emoções têm o mesmo impacto. Elas o afastam de
seu Pai.
O orgulho diz: "Você é muito
bom para ele".
A vergonha diz: "Você é muito
ruim para ele".
O orgulho o afasta.
A vergonha o mantém afastado.
Se o orgulho precede à queda, então
a vergonha é o que o impede de levantar-se após a queda.
* * *
Se Madeline sabia alguma coisa, era
dançar. Seu pai a havia ensinado. Agora homens da idade dele a assistiam. Ela
não percebeu — nem pensou nisto. Madeline simplesmente fez seu trabalho e pegou
o dinheiro.
Ela pode nunca ter pensado sobre o
assunto, a não ser pelas cartas trazidas pelo primo. Todas endereçadas a ela.
Todas de seu pai.
— Seu antigo namorado deve ter
fofocado sobre você. Elas chegam de duas a três vezes por semana — reclamou o
primo. — Dê a ele o seu endereço.
Ah, mas ela não podia fazer isso.
Ele a encontraria.
Ela tampouco pensava em abrir os
envelopes, pois já sabia seu conteúdo: ele queria que ela voltasse para casa.
Mas se ele soubesse qual era o seu trabalho, não estaria escrevendo.
Parecia ser menos doloroso não
lê-las. Assim pensou ela. Não as leu naquela semana, nem na semana seguinte,
quando seu primo trouxe mais, tampouco na seguinte, quando tudo se repetiu.
Ela as guardava no armário da boate,
organizadas de acordo com as datas em que foram postadas. Ela corria os dedos
pelas bordas de todas elas, mas não conseguia abrir uma sequer.
Durante a maioria dos dias, Madeline
conseguia entorpecer suas emoções. Pensamentos de sua casa e pensamentos de
vergonha caíam juntos no mesmo lugar em seu coração. Mas havia momentos em que
seus pensamentos eram muito fortes para resistir.
Como no dia em que ela viu um
vestido na vitrine de uma loja, da mesma cor que seu pai havia lhe dado. Um
vestido muito simples para ela. Com muita relutância ela o vestiu e ficou em
frente ao espelho, ao lado de seu pai.
— Mas você está quase da minha
altura — disse ele.
Ela havia se esquivado ao seu toque.
Notando sua face abatida refletida na vitrine da loja, Madeline percebeu que
daria mil vestidos para sentir seus braços novamente. Ela saiu da loja e
resolveu não passar mais por ali.
No momento certo as folhas caem e a
temperatura abaixa. O correio chegou, o primo reclamou e o estoque de cartas
cresceu. Ainda assim ela se recusava a mandar-lhe seu endereço, como também a
ler as cartas.
Então, alguns dias antes da noite de
Natal, outra carta chegou. Mesmo tamanho, mesma cor. Mas esta não tinha o selo
do correio. E não havia sido entregue por seu primo. Havia sido colocada em sua
penteadeira.
— Há alguns dias um homem grande
passou por aqui e pediu que eu entregasse isto a você. — explicou uma das
outras dançarinas. — Disse que você iria entender a mensagem.
— Ele esteve aqui? — perguntou ela
ansiosa.
A mulher levantou os ombros.
— Suponho que sim.
Madeline engoliu a seco e olhou para
o envelope. Ela o abriu e removeu o cartão. "Sei onde você está",
lia-se, ''sei o que você jaz. Isto não muda o que sinto. O que eu disse nas
outras cartas ainda é verdadeiro".
— Mas eu não sei o que você disse —
declarou Madeline. Ela pegou uma carta do topo da pilha e leu. Então a segunda
e a terceira. Cada uma delas possuía a mesma frase. Cada sentença fazia a mesma
pergunta.
Em questão de segundos o chão estava
coberto de papéis e seu rosto em lágrimas.
Após uma hora ela estava no ônibus.
"Tenho que chegar a tempo."
Os parentes estavam começando a
sair. Joe estava ajudando a vovó na cozinha, quando seu irmão o chamou do
subitamente silencioso aposento.
— Joe, tem alguém aqui que quer
vê-lo.
Joe saiu da cozinha e parou. Em uma
mão a moça carregava uma mochila, na outra um cartão.
Joe viu a pergunta em seus olhos.
— A resposta é sim — disse ela ao
pai. — Se o convite ainda estiver de pé, a resposta é sim.
Joe mal podia acreditar.
— Oh, meu convite está de pé!
Então os dois dançaram novamente na
noite de Natal.
No chão, próximo à porta, havia uma
carta com o nome de Madeline e a pergunta de seu pai.
"Você viria para casa e
dançaria novamente com seu papai?"
